Follow by Email

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

As quatro estações



Primavera

Tivéssemos tempo a perder,
não seria crime, minha senhora,
toda essa esquivez.
Sentaríamos plácidos
à margem do rio e ali ficaríamos a imaginar
mil  modos de amar.
Tu colherias, frívola, rara flor delicada
por entre trilhas sinuosas;
eu, recostado numa rocha,
cantaria, lamurioso, minhas mágoas
às lácteas águas do rio celeste.
Assim, sem nunca nos encontrarmos,
diante do vasto lago da eternidade,
nosso amor cresceria, lento, como as grandes árvores.
E, resignado em esperar até que estivesses madura
para me dares teu fruto,
quedar-me-ia diante de ti, de mãos dadas,
contemplando-me no raso espelho de teus olhos.

Mas não é assim, cara senhora,
o fim de mais um dia me embriaga com a visão do paraíso,
e dele me despeço sem tristeza ou alegria.
Que bom é viver!
Tangerinas douradas pendem sobre minha testa,
ao alcance de minhas mãos, a doce vinha,
minha taça está sempre cheia e eu vivo a sorvê-la.
Se uma flor se me oferece,
que mais posso pretender senão colhê-la
antes que feneça ao sol da tarde?






Verão
Caríssima Senhora,
Que na silhueta de seu rosto eu vislumbre a miragem de uma raça exilada de uma estrela extinta.
Que seus olhos sussurrem em meu ouvido cumplicidades de um amor superstite em busca de um espelho.
Que sua boca, ainda que profanada por mil línguas, seja ardilosa o bastante para calar certas verdades e sutil o bastante para tecer o véu de algum encantamento.
Nada de mãos níveas, dedos inefáveis, que nunca fiaram ou cozeram; antes mãos que engendrem no pão de seus filhos a fome alada dos argonautas.
E que seus pés não tenham que ser gráceis como de alguma princesa vaporosa de contos persas, mas devem necessariamente ter trilhado a desolação dos desertos.
E seios generosos que aplaquem com o seu mel o fel de alguma dor de além-berço.
E pernas solícitas que se abram assim que eu peça, mas se fechem resolutas quando eu não mereça.
E  no seu regaço o navegante exausto encontre o mar da tranqüilidade.





Outono
Venha Senhora
Caminhemos ao longo dessa praia
Gozemos juntos
Esquecidos de nosso pecado
Alguns instantes desse sol de fim de tarde

Que mais posso lhe oferecer senão
Pedaços de sonho e lapsos de felicidade com sabor ilícito?

O sol já não nos doura a pele
E à noite estaremos irremediavelmente separados
Senhora
Deliberadamente esqueçamos
Lancemos fora nossas máscaras
Como criancinhas
Banhemos nossos corpos
Nas águas mornas deste instante
Caminhemos descalços sobre a areia
Seguros
Nossas marcas serão lavadas
Pelas vagas inconstantes
Desse mar que nos absorve
Assim diluídos
Impossibilitados de querermos ser
A beleza mortal
Contemplemos apenas
Nossas mãos entrelaçadas




Inverno
vamos cruel senhora
disseque este meu humilde cadáver
os motivos que porventura encontrar
debaixo dos escombros daquilo que chamam paixão
pode classificar como as desrazões
do falecido que nunca soube decidir
entre não viver e amar
e a morte fez a escolha de condenar-nos
eu-fantasma e você-coisa morta
a não sentirmos mais a perplexidade fundamental de tudo que pulsa
agora que estamos enfim unidos na nulidade
de nossas mais sinceras desilusões
podemos aquiescer
e sentarmos silentes ao lado um do outro
contemplando nossa carência
sabendo que nunca mais daremos as mãos
ou sentiremos o hálito quente que prenuncia o beijo
não nunca mais segredaremos que somos um
serpenteando nossas línguas no enredo de um mortal abraço

ilhados e lassos chegamos ao fim

(2003)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Melancolia


Se o desgosto suplanta o gosto.
 Largue o posto.
Sem drama, sem pranto, sem gemido.
Basta um suspiro.



Ser feliz, se fosse possível, seria errado. A felicidade ao céu pertence. Na terra o ato mais sublime é ser melancólico.



Melancolia sideral. O ser humano só deixará de ser melancólico quando encontrar Deus.



Esse negócio de ser macho e fêmea é coisa da terra. No espaço sideral seremos hermafroditas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Justificativa 2


visto-me de palavras

para despir-me de minhas carnes

e lançar meus ossos

nas fundas falésias das entrelinhas

para que silvem
                          assobiem
                                          sussurrem
                                                            ao vento vertical dos vórtices

o canto surdo dos fiordes interiores



mefisto fala melífluo

nas falências de meus sonhos

e minhas carnes sobre a mesa doem

repasto de rapinas



meus ossos
                    entretantos
                                       nas falácias
sibilam

(mar/1990)


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sem Título





de repente o gesto desesperado
nos salva
lança-nos nas sombras
do insondável presente
esse assombroso intervalo
nas dobras entre as vértebras rotas
da vertiginosa fratura da rotina

do ato inesperado
verte o amálgama de sangue
e ossos triturados na engrenagem da alma
que gruda o vidro da retina
à pele enrugada do mundo

assim acuados
de repente
despertamos opacos
tateando o pálido dorso da fera
translúcida em cujo desfigurado semblante
vemos nosso rosto prefigurado

(jun/2013)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O amor



O amor meu caro
Ah o amor é assim
Hoje é beijo amanhã é ferida
E segunda-feira é  outro dia

Nós amamos num dia qualquer
Não há dia nem lua certa para amar
Nem é preciso boca que beije
Ou olhos que procurem
O amor é apenas possibilidade
Não tem que ler horóscopo
Ou as cartas
Além do mais há ruínas em todos os abraços

(jul/1997)

Pajelança





Water springing water
Bath me wounds through

Wind howling wind
Breath me bad thoughts away

Wine sacred wine
Wash me tears away

Smoke secret smoke
Blow me soul off

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Indícios da serenidade


algum canto
no ruído da cidade
a libido pela metade
um bolero à media luz
me diz:
dane-se o cenário mundial
incendiário aposentado
vamos às palavras cruzadas
mais vale folhear o hebdomadário local
de trás pra frente

o tesão pelo meio
me avisa em sotto voce:
o escuro no fim da luz
as visitas ao passado perdão pra todo lado culpas desculpadas fardos leves pra ombros curvados

no domingo com a família
o delírio sem colírio
bate à porta envergonhado
risca um fósforo na sala
e se arrepende

no meio do caminho

no desespero temperado
pelo sal da medianidade
chega a serena idade

(ago/2003)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Envelhecer (Arnaldo Antunes)


A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer

Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá

Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé
Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer
Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr

Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer

Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá.
-->
-->

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A casa é sua (Arnaldo Antunes)



não me falta cadeira
não me falta sofá
só falta você sentada na sala
só falta você estar

não me falta parede
e nela uma porta pra você entrar
não me falta tapete
só falta o seu pé descalço pra pisar

não me falta cama
só falta você deitar
não me falta o sol da manhã
só falta você acordar

pra as janelas se abrirem pra mim
e o vento brincar no quintal
embalando as flores do jardim
balançando as cores no varal

a casa é sua
por que não chega agora?
até o teto tá de ponta-cabeça porque você demora

a casa é sua
por que não chega logo?
nem o prego aguenta mais o peso desse relógio

não me falta banheiro quarto
abajur, sala de jantar
não me falta cozinha
só falta a campainha tocar

não me falta cachorro
uivando só porque você não está
parece até que está pedindo socorro
como tudo aqui nesse lugar

não me falta casa
só falta ela ser um lar
não me falta o tempo que passa
só não dá mais para tanto esperar

para os pássaros voltarem a cantar
e a nuvem desenhar um coração flechado
para o chão voltar a se deitar
e a chuva batucar no telhado

a casa é sua
por que não chega agora?
até o teto tá de ponta-cabeça porque você demora

a casa é sua
por que não chega logo?
nem o prego aguenta mais o peso desse relógio
 


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um bom poema (Paulo Leminski)





     um bom poema
leva anos
     cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
     seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
     sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
     três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
     uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um dia (Paulo Leminski)

                                   

                            

                            um dia
                            a gente ia ser homero 
                            a obra nada menos que uma ilíada 

                           depois a barra pesando 
                           dava pra ser aí um rimbaud
                           um ungaretti um fernando pessoa qualquer 
                           um lorca um éluard um ginsberg 

                           por fim 
                          acabamos o pequeno poeta de província 
                         que sempre fomos
                          por trás de tantas máscaras 
                         que o tempo tratou como a flores

domingo, 2 de setembro de 2012

Joyceana


1.


no início de tudo era ela – Eva primeira mãe de todas –
seu ventre sem umbigo estendia-se como ovalada planície
com a azáfama de parir
prenhe de miríades de hipocampos em sua bojuda pança hermafrodita
a partir de um invisível onfâlo
ela era também ele de tanta impregnação
a ele uniunidaconsubstanciadamente apesar de

mulher primeva já era desde sempre
em sonhos me visita de raro
quando nada falamos, apenas deitamos silentes e
mudamente ficamos rentes roçando nossas auras reunidas
inunda-se a noite de pirilampos
e iluminado de imenso
quedo-me embasbacado depois por dias colando cacos - 
fragmentos de sua silhueta lucívora até que só restam sombras

2.

vegetissombras flutuavam silentes na paz outonal
uma voz de dentro borbulhou 
pare de remoer esse moinho
disse.
eu cantava sozinho em águas amargas, sustendo os longos acordes musgosos
de rumorosos remorsos verdemuco
o espalho do céu triscava lucífugas flechas no tremulazulado véu da tarde

subitouvi sua voz dela. Seus olhos sobre mim
emborrascando todos seus traços dela
rosnou com rascante voz rouquenha
no que ficou parada – vestuta vestal

3.

recomposto cruzei o umbralino deserto
na escuridão de minha mente uma preguiça do inframundo
avessa à claridade relutando, re-lutando
remexendo minhas dobras escamosas de dragão 
Puff no sótão de jackie paper esquecido

a alma é tudo o que é: a forma das formas
inelutável modalidade do visível


4.

contando as maneiras do seu olhar dela
para ler a assinatura de todas as coisas
signos coloridos nos limites do diáfano
ando, adianto uma pernada por vez, epifanando pouco-a-pouco
day in day out that same old voodoo follows me about
Ella bruxa
day-in-day-out I drag on
eu-dragão
minha espada de freixo pende a meu lado e desde
uma escarpa que se salta de suas bases miro
o véu azulargênteo e imagino-a com cinzas em seu hálito
e o plúmbeo aroma exala de seus pelos dela
do corner do meu olho vejo
uma mosca diafanando sobre seu oblongo nariz
revejo: a mosca se foi mais a bruxa

a inelutável modalidade do invisível

aí está: o tempo sem ela. Sempre o será.
o mundo sem fim

(out/2008)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ICEBERG (Paulo Leminski)



Uma poesia ártica,
     claro, é isso que desejo.
Uma prática pálida,
     três versos de gelo.
Uma frase-superfície
    onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
    Frase, não. Nenhuma,
Uma lira nula,
    reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
    a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
    nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
    Sim, inverno, estamos vivos.

A Piedade (Roberto Piva)




A PIEDADE

Eu urrava nos poliedros da justiça meu momento
                                                    [abatido na extrema
paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
                                                       [luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
      aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
                                                       [cu-de-ferro e me
     fariam perguntas por que navio bóia? por
     que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
                                                        [estátuas de
     fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
                                                    [pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
                                                    [que tenho
     todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
                                                [pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
                                                 [asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
                                                   [dos meus sonhos


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

never more




no cruelty no hatred no fear
not even a single tear or a pale smile
will be worth in a heart of crystal

no passion no bleeding fire
not even a sign of desire
never a trace of delight or despair on an eyesight
perhaps a message of  best regards left
in absent written words

no promises no confidences
not even true lies said in a confident voice
no giving-ups  no starting-overs
no more expectations
memories no more
perhaps a pair of broken wings

no more a wishful breathing
oh never more
a slight quiver in this corpse
never


(jun/2002)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012




Sob o signo de Leão, Caetano chega aos setenta.

Nascido em 1942, em Santo Amaro, interior da Bahia, Caetano Veloso completa 74 anos no dia 7 de agosto. É um dos principais cantores, compositores e violonistas brasileiros. Mas poderíamos ir além e dizer que é um criador de estilos e tendências. Esse baiano superbacana é qualquer coisa, beleza esperta, que desde a década de 60 tem renovado constantemente seu repertório, verdadeiro camaleão da música popular brasileira.
Quando surgiu para o público maior, que assistia aos festivais da Record nos anos 60, causou alvoroço com a canção Alegria alegria. Mostrou que vinha para caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento, no coração do Brasil. Nos tempos sombrios da ditadura militar foi um guerrilheiro cultural, já que sem livros e sem fuzil, incomodava pelo brilho da sua inteligência que denunciava o nosso anacronismo. Com um ritmo novo e bárbaro, atravessado por influências como a Bossa Nova, o Baião e o Rock, suas canções mostravam que, por detrás do monumento de papel crepom e prata, erigido no planalto central, uma criança sorridente, feia e morta estende a mão. Era a tropicália, que explodia como uma granada, revelando o abismo entre o sonho de um país moderno e a realidade de um Brasil arcaico. Não tardou para que o governo dos generais o convidasse a deixar o país.
 Em 1969, ele e Gilberto Gil, seu companheiro desde os primeiros tempos em Salvador, foram para o exílio em Londres.  Os dois tornaram-se parceiros na música e na vida, e atravessaram juntos aquele período turbulento da história do país. De volta ao país, em 1972 retoma a sua produção. A década de 1970 foi muito importante para a carreira de Caetano, e para toda a MPB. Entre as canções de Caetano mais representativas desse período estão algumas como Odara, Um índio, Oração ao tempo, Tigresa, Terra, O leãzinho, que são verdadeiras obras-primas do cancioneiro da nossa MPB.
Suas qualidades como compositor fazem dele um grande poeta da Língua Portuguesa. É inegável que em suas letras a sua língua roça a língua de Camões. Mesmo em letras aparentemente simples, despretensiosas, como O leãozinho, para ficar num exemplo, uma leitura mais atenta revela sua potência poética. Eis a letra:


Gosto muito de te ver, Leãozinho
Caminhando sob o sol
Gosto muito de você, Leãozinho

Para desentristecer, Leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho

Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar como um ímã
O meu coração é o sol pai de toda a cor
Quando ele lhe doura a pele ao léu

Gosto de te ver ao sol, Leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba

Gosto de ficar ao sol, Leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar numa


Vemos, logo na primeira estrofe, a aproximação e, consequentemente, a associação da figura do leãozinho com a do sol. Sol e leão, leão e sol, uma relação que é retomada ao longo da letra, criando um efeito não apenas de reiteração, repetição, mas também de coesão temática.  Assim, o “filhote de leão” é associado diretamente a“raio da manhã”, e mais indiretamente logo adiante no verso “Quando ele lhe doura a pele ao léu”, o pronome “ele” refere-se ao sol, o astro-rei do nosso sistema, como também é o leão rei das nossas selvas. Sem nos esquecer que o sol é o astro regente do signo de Leão, ou Leo (em latim), retomado pela palavra léu, que significa “inação”, “ócio”, mas cuja sonoridade aponta para a raiz da palavra leão (Leo). Na última estrofe, temos outra alusão ao grande felino no verso “De estar perto de você e entrar numa”, em que podemos ver na palavra numa, além da contração da preposição em + o artigo  uma, o possível substantivo próprio Numa, nome da leoa de Tarzan, um seriado muito popular na televisão na década de 70. As caras e os coroas hão de lembrar-se.
Por essas e outras é tão bom ouvir Caetano e entrar numa, para desentristecer o nosso coração e tudo ficar odara!
http://www.youtube.com/watch?v=M_X7G-33JDo

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Campos & Espaços





Campos
            alfa                      
                                                                                      estelares
                                                                        
                                                                          (anche le stelle muiono...
supernovas
                                                           fótons                           
quarks                    quasares             
um átimo no hálito etéreo

                                             fecundantes campos de centelhas
                                           semeados de luz fáustica
                       chispas 
         faíscas fagulham
no breu circundante

e num vão piscar                            de olhos
                         vão num riscar                         
                                                                                                    de estrela                                                                                                                                                         
                                                                                                                      cadente                                                                                            
num vão                            

                  entrementes

                                                        entretantos 

 ômega


(ago/1999)

sábado, 2 de junho de 2012

Disfarces




Não são as mesmas nossas línguas
Como não são as palavras
A flutuar nas mesmas águas
Da mesma polissêmica miragem

Não são as mesmas nossas bocas
Como não são as vozes
A ressoar nos mesmos ecos
Do mesmo grito de origem

Não são os mesmos nossos corpos
Como não são as roupas
A cobrir os mesmos medos
Da mesma pálida coragem

Não são os mesmos nossos deuses
Como não são as sombras
A proteger os mesmos sonhos
Do mesmo sono oco e virgem


(jul/1992)

velhas palavras


ditas de tantas bocas e de tantos ouvidos envelhecidas
quero-as para mim
sempre inexauríveis de velhas verdades
de simplicidade tanta
palavras esquecidas
desprezadas sob as ruínas de minha soberba
preencham este abismo cavado de tanta procura
quero-as de volta
eu redivivo


domingo, 20 de maio de 2012

Portrait de femme




eu queria um rosto
e nesse rosto algo assim de indefinível
que me lembrasse a Vênus no espelho
mas que jamais ousasse um beijo
como se fosse um retrato

eu queria um olhar
e nesse olhar algo assim de indecifrável
que me tornasse cativo
mas que jamais ousasse uma certeza
como se fosse um nonsense

eu queria uma voz
e nessa voz algo assim de inefável
que me lembrasse uma sereia
mas que jamais ousasse um canto
como se fosse uma teia

eu queria enfim um corpo
e nesse corpo algo assim de intangível
que me fizesse escravo
mas que jamais ousasse um gesto
como se fosse um pecado

(mar/1994)